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Paisagem 37 - A formação do sorriso

quarta-feira, 26 de julho de 2017


Dia desses, Ingrid Maria me olhou nos olhos de forma fixa, e sem desviar o olhar, com os olhos brilhando, meio verdes como só os que ela têm, e um sorriso foi se formando no canto da boquinha banguela, aos poucos, vindo de dentro, vindo do fundo de toda a inocência, de todo do amor, de todo o reconhecimento. Eu acho que foi neste momento que eu descobri o que é o amor de mãe.

Mundo, mundo, vasto mundo! Estamos de volta...

Paisagem 36 - Ao celular

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Ela sorria enquanto olhava o celular atenta, sentada frente a mim no banco do trem. Celular tem dessas coisas: às vezes faz sorrir, às vezes chorar, às vezes xingar. Era um sorriso sincero e divertido, talvez de uma mensagem galanteadora do "crush", ou de uma amiga engraçada que acordou de bom humor. O sorriso sincero me intrigava, e eu ficava a observá-la, imaginando o que estaria se passando naquela tela. Ela percebeu, mas continuava a sorrir, mesmo olhando para mim. Havia um abismo entre nós, comunicacional, eu diria, que não me deixava compreender a mensagem que ela passava com os olhos e com aquele sorriso. Eu estava ali, curiosa e tentando decifrar o enigma do celular, algo quase impossível. Ela sorria e ria, por dentro, da insolubilidade de seu enigma e de minha incapacidade de desviar o olhar e o pensamento. Celular tem dessas coisas, transforma seus arredores em silêncio, como numa bolha, e o seu mundo cabe naquela tela minúscula, transmutável ao toque de seus dedos. Eu estava fora, curiosa, excluída. Desci três estações seguintes. 

Paisagem 35 - A galinha do vizinho

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Foto minha!


Há alguns dias notei que uma galinha anda circulando nos telhados, de frente para minha janela. Quando ela some, geralmente desce até a casa do vizinho, ou dorme embaixo da caixa d’água de outra vizinha. A galinha é preta, e tranquila, não incomoda nem mesmo os gatos que tomam seus longos banhos de sol sobre o mesmo telhado. Hoje, após muitos dias observando-a, flagrei-me a pensar sobre a galinha: será que tem companheiras lá embaixo, que não são tão corajosas a ponto de subir e explorar os telhados? Será que é a única, em meio a este caos que é a cidade grande, onde ninguém mais cria galinhas? Seria uma galinha solitária? (tadinha! Galinhas não precisam socializar com outras galinhas?) – desculpem a minha ignorância, mas estas perguntas são verdadeiras, pois não entendo de galinhas. Acabei de olhar pela janela. A galinha está tomando sol ao lado da caixa d’água. Tive medo, por um minuto, de amanhã ou depois ela não estar mais lá, ao sol. Não conheço os vizinhos seus donos, não sei se a comerão amanhã, ou se farão alguma mandinga com o seu corpo preto (a galinha é preta). Joguei uns farelos de bolacha e ela me olha desconfiada. Ainda estou com medo de acordar e não tê-la mais na paisagem feia de minha janela: telhados velhos, caixas d’água e uma galinha preta. Melhor eu parar de pensar sobre o futuro... se nem mesmo de galinhas eu entendo!


Pela noite adentro

sábado, 26 de março de 2016

Foto retirada do site Globo.com

Eu sempre notei as transformações que ocorrem noite adentro nos rostos maquiados das moças e nos perfumes requintados dos rapazes a procura de diversão, álcool, música e descontração. Era assim que eu também, participava eufórica e curiosa, em busca de sensações que somente a noite pode oferecer. Ontem, no entanto, talvez em virtude de meus trinta e tantos anos, eu percebi a outra face da noite: os locais antes preenchidos com pernas, transeuntes, cachorros, agora davam lugar a cobertores e corpos amontoados no canto, junto à parede, na tentativa de se esquivar dos ventos da noite. Uma moça bem vestida parou e ficou um tempo conversando com os que ali amontoados estavam, talvez oferecendo ajuda, seja lá qual for, e depois saiu, sem qualquer atitude suspeita. Não sei se voltou. Eu também não voltei. Hoje cedo, no ponto de ônibus, uma cama de papelão estava montada no cantinho, próximo a um bar, ainda com seu cobertor. Talvez alguém more ali, naquele pedacinho protegido da chuva e do vento, mas eu não sei, porque também não voltei.


Paisagem 34 - Estrelas

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Esses dias fui convidada a ver as estrelas. Parecia algo comum, apenas mais uma parte do céu escuro que cobria São Paulo, se você olha de forma rápida e desinteressada. Então ele me disse "olha bem, dá pra ver as estrelas, milhares". E dava mesmo. O céu azul escuro parecia pintado com pingos brilhantes, cuja luz se misturava num emaranhado ao qual os astrônomos chamam de constelação. Eu não sabia o seu nome. Ele tampouco. De mãos dadas, a olhar para o céu, isto também não fazia a menor diferença.

Paisagem 33 - Flores

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

 
A moça chorava enquanto segurava um buquê de flores nas mãos, em pé, no trem, às 21h do dia em que principiava a primavera. Nada mais bonito e significativo, pensava eu. Sempre invejei mulheres com buquês, imaginando a cena que precedera a entrega, e a declaração de amor implícita nas pétalas das rosas vermelhas. Vermelho paixão: clichê. Mas aquela moça, naquela noite, tinha uma tristeza nos olhos, que tentava esconder com a cabeça baixa, em meio aos cabelos. Percebi também que chorava, meio abafado, disfarçando os soluços entre as respirações. Sempre imaginei a alegria de receber um buquê, mas talvez, naquele momento, as flores representassem uma despedida, ou palavras amargas em um cartão mal escrito, vai saber. Eu sempre invejara mulheres com buquês, mas naquele dia, olhando pelo reflexo, eu sentia apenas pena.
 
Feliz 2016! ;)
 

Paisagem XXXIII - Meio-fio

sexta-feira, 10 de julho de 2015

O corpo estirado no meio-fio me mostra que ainda não sei lidar com a morte. Mesmo consciente de que é o destino final de todo ser vivo, o sangue que escorre pela calçada me choca, e vejo-me no reflexo da janela do ônibus com os olhos lacrimejantes e expressão triste. A "indesejada das gentes", como a chamava Bandeira, não se importa com os anos de experiência, com a vida vivida ou com os filhos que você deixou. Ela cumpre seu papel, estando pronto ou não para a partida. O corpinho estirado no meio-fio não tinha preocupações, não deixou um emprego, nem mesmo filhos. Ainda com a cabeça recostada no vidro da janela, penso, talvez tivera uma vida feliz.


Os escravos do sistema

quinta-feira, 19 de março de 2015

Texto meu publicado na Revista Escrita Pulsante!

Às 14h de uma tarde ensolarada, na agência sem ar-condicionado do Banco X, a funcionária responde à senhorinha grisalha que deseja atendimento que seu problema não será resolvido porque o banco “tá sem sistema”. Já no Banco Y, o sistema cobra mensalmente de minha conta uma taxa sobre um serviço que não utilizo e, ao questionar a gerente sobre a cobrança indevida, e se não há meio de interromper tais cobranças mensais, ouço um “não consigo, é o sistema que cobra automático”.

Estas situações me fizeram refletir sobre esse tal sistema, que no Banco X simplesmente desaparece, e deixa centenas de clientes sem atendimento, e o sistema que, no Banco Y, assume vida própria e faz as cobranças que quer, na hora que quer.

O título deste texto até sugere um discurso anti-capitalista, anti-bancos, anti-FMI e anti-tudo, mas, na verdade, caros leitores, há em si uma triste premonição sobre uma geração de escravos dos sistemas criados por nossos próprios especialistas.

Sistemas que abrem e fecham portas, que fazem contas, que dirigem carros e que fazem medições. Já prevejo um futuro amedrontador: sistemas que realizam cirurgias, que arrancam dentes e gerem o destino das pessoas. Amanhã, o próprio sistema levantará de sua mesa e virá ao meu encontro, na recepção, e me dirá “não podemos atendê-la hoje, senhora, volte amanhã”, e sairei impotente, como o fez hoje a senhorinha grisalha que encontrei pela tarde, e me recolherei à minha insignificância de ser humano. De volta à minha casa, o sistema que abre a porta não me deixará entrar antes do horário programado, e o sistema que passeia com meu cachorro deixará que ele escape, e eu o perca para sempre. Que triste esse futuro sistematizado.

Mais tarde, verifico o extrato de minha conta e o valor cobrado pelo sistema com vida própria foi devolvido. Pelo menos por mais esta noite posso dormir tranquila: a gerente venceu o sistema. Por enquanto.

Paisagem XXXII - Dezembro

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014



Vejo cachorros sendo tratados como príncipes e homens tratados como ratos de esgoto. Qual será o critério utilizado pelo Universo quando se trata de merecimento? Quem merece o quê, e como? A meritocracia cósmica é mais cruel que a dos homens, penso enquanto caminho. Atração, reação, merecimento: eu mereço essa inquietude que tudo questiona, e procuro respostas que nunca terei. Atração, reação, merecimento: é melhor que eu agradeça, na noite de Natal, o chester sobre a mesa. Honrar a vida do animal morto em nome do nascimento do Homem que está sendo aos poucos esquecido. Se aplicarmos o conceito de meritocracia, vira blasfêmia? Acho que sim, melhor parar por aqui e agradecer: pelo chester, pelo cachorro, por não estar no esgoto com os ratos. Ano que vem começa tudo de novo, se você merecer um ano novo.   

A propósito, Feliz Ano Novo!!! :) 


 
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